
Winston Luiz Rossato, 48 anos, criava com tranquilidade ovelhas na sua propriedade, vizinha ao Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), até que em 2018 uma onça invadiu o espaço e abateu um dos animais. Naquela época, ele considerou o episódio uma fatalidade e seguiu a vida. Porém, em 2020, o felino voltou a atacar e Winston perdeu outra ovelha do rebanho. Desta vez ficou ressabiado e resolveu pedir ajuda. Foi aí que a equipe do Projeto Onças do Iguaçu entrou em ação e Winston, que antes temia a presença das onças, se tornou um aliado para a conservação da espécie.
É justamente essa virada de chave, ou seja, fazer com que a onça deixe de ser uma ameaça a fazendeiros e sitiantes e passe a ser uma amiga, que é o foco do Projeto Onças do Iguaçu, desenvolvido desde 2018 no chamado corredor verde, que compreende o Parque Nacional do Iguaçu, no Brasil, o Parque Nacional del Iguazú e outros parques provinciais argentinos, em uma área total de 528.123 hectares.
O corredor verde abriga pelo menos um terço de todas as onças-pintadas da Mata Atlântica e é considerado o habitat mais adequado para a espécie no bioma. A onça-pintada, que é o maior felino das Américas, é considerada chave para a manutenção da biodiversidade do Parque Nacional do Iguaçu. É com muita conversa, visitas às propriedades, ações em escolas, nas comunidades e atendimentos imediatos quando uma onça aparece que aos poucos a equipe do Projeto Onças do Iguaçu, formada por biólogos, veterinários e gestores ambientais, leva fazendeiros e sitiantes a entender que fazer o manejo para evitar a aproximação das onças é muito mais inteligente do que eliminá-la.
Uma das principais presas das onças-pintadas, o queixada, estava extinto nos últimos 20 anos no parque e voltou a ser visto a partir de 2016, o que pode ter contribuído para o aumento da população de onças na reserva, diz Yara. Divulgado em junho deste ano, o último censo da onça-pintada realizado pelo projeto Onças do Iguaçu e o projeto parceiro, Yaguareté, na Argentina, indica que 93 onças-pintadas vivem na área verde entre o Brasil e a Argentina. A população dobrou de tamanho na última década e agora se mantém estável. Toca da Onça A história de Winston é um dos exemplos que deu certo. Após acionar a equipe do parque, ele recebeu orientação de como fazer o manejo adequado.
“Acertando o manejo não tivemos mais problema. Continuamos a viver em harmonia com os animais sem uma medida drástica”, conta Winston. Em razão da colaboração e do apoio ao projeto, a propriedade chamada Morada dos Ipês, que também funciona como pousada, foi a segunda situada no entorno do Parque Nacional a receber a certificação de Toca da Onça, selo destinado a locais de hospedagem. Isso significa que os proprietários apoiam a onça-pintada.

Para Winston, o fato de a propriedade ter o selo Toca da Onça acaba atraindo mais pessoas, principalmente estrangeiros que chegam com à expectativa de ver onça ou algum animal silvestre. Lá é comum ver tucanos, araras, iraras, esquilos, entre outros bichos. Gestor ambiental, Thiago Reginato, diz que o manejo é importante porque um dos grandes problemas existentes hoje na região é a cultura do descarte de carcaças provenientes de animais que morrem ou são abatidos para alimentação. “Isso acaba atraindo os predadores para a propriedade”. Além de orientar o manejo, a equipe levanta as necessidades dos proprietários para evitar os ataques. “Nós avaliamos a propriedade e construímos juntos o que precisa para cada lugar”, explica a gestora ambiental Aline Kotz.