Por Tobias Ferraz

Um dos animais mais belos e expressivos da nossa fauna, a onça (Panthera onca), é uma espécie que habitou grande parte da América do Sul e todos os biomas do território brasileiro, desde o Amazonas, passando pela Mata Atlântica e Pantanal, Cerrado, Caatinga até o Pampa gaúcho. Além da beleza, a onça é um ser que fez uma longa jornada evolutiva, até atingir níveis extraordinários de vida autônoma. Desde os primeiros anos de vida, o filhotão ou filhotona, já demonstra o forte instinto de independência.
Para muitos estudiosos a onça é considerada um “animal perfeito”, por causa da sua agilidade, força e habilidade para caça. É o maior felino das Américas e um predador de topo da cadeia alimentar, “ninguém pode com a onça”. O território necessário para que um desses animais viva de forma saudável, varia entre 500 km² e 1.000 km². Para ter uma ideia da grandeza dessa área, o município de São Paulo tem aproximadamente 1.500 km². Como é um bicho carnívoro, que necessita em média de 3 kg de carne por dia, ela sai em busca de vários tipos de animais como antas, capivaras, tatus, jacarés e peixe. Essa necessidade alimentar em busca por presas é que justifica grandes áreas para viver, sem ter de rivalizar com outros animais da mesma espécie. Entre os machos, o território é questão de domínio.
Pois bem, essa majestade, segue na categoria “quase ameaçada”, na classificação de animais em risco de extinção, pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Classificação que merece ser revista em algumas regiões do Brasil. Estão destruindo o ambiente natural, a caça clandestina continua e sua reprodução está comprometida por falta de indivíduos para o acasalamento.
No imaginário indígena, a onça ou jaguar, é cheia de simbolismos. Representa força, sabedoria, conexão com o mundo espiritual, além de ser guardiã da floresta.
Guimarães Rosa, traz a força do significado da pintada para os povos da floresta, em um conto extraordinário, Meu Tio, iauaretê (jaguaretê), onde ele mostra toda mística em torno do animal.
No final de março, a escritora Morgana Kretzmann publicou um artigo na Revista Sumaúma com este triste título A última onça do Rio Grande do Sul. Ela conta sobre a sua vivência no entorno do Parque Estadual do Turvo, no nordeste do Rio Grande Sul, na fronteira com a Argentina. Ela tece a história da sua convivência com a Natureza desde menina, ouvindo histórias de onças, até chegar à triste solidão do macho Yaboti, como resultado de um processo de extermínio. O artigo está disponível na versão digital em
Mais recentemente, viralizou nas redes digitais e internet o caso do ataque de onça em Aquidauana, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, quando o animal matou o caseiro de um pesqueiro. Não vou entrar no mérito do fato, e sim ressaltar que muita gente que nunca viu uma onça, não conhece o comportamento da bichana e muito menos sabe alguma coisa sobre a espécie, sai falando um monte de bobagens, “incriminando” todas as onças do mundo e assim incentiva maus tratos e perseguição. A inteligência artificial ainda está muito atrás da ignorância natural. Justifico. A área em que aconteceu o ataque é território habitado pelas onças há milhares de anos, ou seja, o humano não indígena ocupa áreas de moradia e passagem das onças, logo o risco da aproximação e exposição é alto, daí é que acontecem os acidentes. Para quem mora no Pantanal, na Amazônia ou em alguma outra área com grandes florestas, sabe muito bem que onça prefere outro tipo de carne.
Não custa nada lembrar que a onça é predadora, entre tantos animais, da capivara. Uma onça pode fazer o controle natural da população de capivaras e evitar o desequilíbrio. Vamos combinar, “quem não pode com mandinga, não carrega patuá”. Deixem as onças em paz!
Um abraço frondoso pra todo mundo.