Vou morrer aqui pelos meus animais’, diz dono de abrigo na Ucrânia


O italiano não quer abandonar os 400 bichos que resgatou


Andrea Cisternino vive na Ucrânia há 13 anos, não muito longe de Kiev, onde criou seu próprio abrigo de animais abandonados. Originalmente um fotógrafo de moda da Itália, ele se casou com uma mulher ucraniana e se recusa a deixar o país, para não abandonar os 400 bichos que resgatou, incluindo cães, gatos, ovelhas, porcos e cabras. “Vou morrer aqui pelos meus animais. Tenho que pensar em salvar esse refúgio. São 400 hóspedes, que merecem ser protegidos a qualquer custo”, postou, em sua conta no Facebook.
Apesar de a força aérea russa atacar várias áreas civis e pairar nas proximidades de seu abrigo, Cisternino permanece implacável e, regularmente, posta atualizações sobre ele seus animais. Na primeira noite da invasão russa, ele revelou como a cidade estava sob toque de recolher durante todo o dia e relatou os cortes de energia por precaução, em meio a ataques aéreos russos.

No último dia 4, uma amiga de Cisterino publicou uma atualização. Anna Raimondi disse que tinha acabado de falar com a mulher do fotógrafo, que conseguiu entrar em contato com o embaixador italiano em Kiev. O diplomata prometeu tentar abrigá-la na Embaixada e não criticou a decisão de Cisterino de continuar no abrigo. “Vamos lá, Andrea, estamos todos pensando em você”, escreveu.

Para Andrea Cisternino, a decisão é definitiva: a Ucrânia está em guerra, mas o regresso a Itália (país onde nasceu) está fora de questão. “Há anos que cuido desses 400 animais que salvei de maus tratos”, assumiu ao La Stampa, admitindo que “construir este refúgio exigiu muito esforço”. “Não vou embora, não abandono os meus animais”, reiterou. Descobriu o cheiro da pólvora e, por isso, não negou as atuais circunstâncias: “Vivemos com angústia, mas tentamos ser positivos”.
O italiano, um ex-fotógrafo de moda, mudou-se para a Ucrânia com a mulher Vlada Shalutko em 2009. Mais tarde, em 2012, fundou um abrigo de animais (inicialmente só para cães) a 45 minutos de Kiev. Hoje, ali coabitam além de cães, também gatos, cavalos, vacas, porcos, cabras, ovelhas, gansos e galinhas.

É “uma loucura, em 2022, uma coisa destas poder acontecer”, vincou ao jornal italiano. Só passou uma semana, porém “parecem seis meses”, corroborou em entrevista à agência de notícias, com voz cansada.
Apesar de acreditar que a guerra não assolaria o país, já estava guardanado alguns mantimentos, fruto de uma situação traumatizante datada de 2014, quando o governo italiano deu licença aos caçadores para matar cães vadios. Aí, colocaram fogo no abrigo.

Na primeira noite vivida sob invasão russa, deu conta que o toque de recolher tinha um longo período e que as casas das proximidades estavam com pouca luz. “Temos esperança numa noite tranquila”, lia-se na legenda que acompanha a foto, onde Andrea surge de sorriso rasgado ao lado de um porco.


No desabafo do dia seguinte, fez saber que “o céu estava vermelho”, que não conseguia dormir devido ao som dos tiros, e que viu um projétil a cair perto do abrigo. Deixou igualmente uma mensagem de revolta: “Que Deus nos ajude e amaldiçoe aqueles que quiseram começar tudo isto”.
No mesmo dia, partilhou um vídeo onde se vê um avião militar sobrevoando a zona.
Os cibernautas têm demonstrado preocupação, perguntando como é que Andrea se sente e pedindo que dê notícias. Um deles escreveu: “Toda a nossa solidariedade, a tua dor é a nossa e esperamos que todo este absurdo cesse por respeito às vidas humanas”. Outro optou por dar palavras de força: “Aguenta firme. Cada dia que passa será um dia a menos no final”.

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