Desertificação, um fenômeno que atinge mentes e territórios!

No dia Mundial de combate à Seca e à desertificação, nosso amigo e colaborador Tobias Ferraz nos brinda com uma matéria muito bem construída sobre o tema. Obrigado Tobias!

Por Tobias Ferraz, jornalista, formado pela Uniube. Trabalhou por cerca de 30 anos com jornalismo rural. Nos últimos anos optou pelo jornalismo independente e se dedica às pautas socioambientais.

Desertificação, um fenômeno que atinge mentes e territórios.

A preocupação com a avanço das áreas de desertificação no nosso país é antiga é tem muitos registros, talvez o mais precioso deles esteja nos diários do Marechal Cândido Mariano Rondon.

Mais conhecido pelo seu trabalho junto aos povos indígenas, Rondon foi, acima de tudo, um servidor público exemplar, pela sua robusta formação acadêmica, fluente em várias línguas e possuidor de notório saber, Rondon era considerado “um pau pra toda obra” entre os governantes da Primeira República.

No livro “Rondon, uma biografia”, do jornalista estadunidense Larry Rohter, na página 346 conta que em 1920, o Marechal fez parte de uma missão presidencial para avaliar a seca severa que assolava o Nordeste brasileiro. Na página 347 o jornalista fala sobre o relatório final da comissão depois da viagem pelo Estado de Pernambuco: “Ele já encontrara esse fenômeno em área do Mato Grosso e do Amazonas onde fazendeiros e colonos recém chegados do Sul haviam ignorado ou desprezado métodos indígenas tradicionais de cultivo e rotação de culturas. No Nordeste, onde a ocupação do europeu tinha uma história bem mais longa, o problema era ainda mais pronunciado.” Um pouco adiante, o colega Larry reproduz um trecho do diário de Rondon: “É o agente homem que assumiu entre nós o papel de estranho fazedor de desertos. Quando a chuva cai, passa célere sobre os chapadões desnudos cuja irradiação intensa lhe altera o ponto de saturação, diminuindo a probabilidade de chuvas. O homem pode corrigir o passado trabalhando com a natureza e não contra ela. É claro que a criação e a conservação das florestas constituem providência básica, seja qual for o ponto de vista, como meio para modificar as causas da irregularidade no regime de chuvas.”

Gente! O Marechal Rondon escreveu a observação acima no seu diário há 125 anos! De lá para cá, uma série de estudos foram e continuam sendo desenvolvidos para entender as consequências do desmatamento e o avanço da desertificação.
Hoje, Dia Mundial de Combate à Desertificação, novos alertas são emitidos e ações cada vez mais assertivas se fazem necessárias.

O secretário geral das Nações Unidas, António Guterres, já alerto para o fato de que a cada segundo, uma área equivalente a quatro campos de futebol com solo saudável se transforma em espaço degradado no planeta.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) acompanha o avanço do processo de desertificação, com uma taxa média acima de 75 mil km² das áreas consideradas semiáridas, abrangendo todos os estados nordestinos (exceto Maranhão) inclusive o Norte de Minas. São mais de 1.400 municípios com risco de algum grau de desertificação.

Neste ano, o Plano Nacional de Combate à Desertificação completa dez anos. São muitos os desafios para novas áreas impactadas, mas o principal deles talvez seja a desinformação seguido da falta de informação. A negação sobre o fato das mudanças climáticas talvez faça da barreira cultural um elemento de resistência para a implantação de projetos fundamentais. As técnicas e procedimentos da agroecologia podem trazer não apenas regeneração das áreas degradadas, mas também o bem viver e felicidade para as populações vítimas do processo de desertificação.

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