
Por Tobias Ferraz
Nesta época do ano faz frio nas noites do Cerrado. Na madrugada da última quinta-feira, no Distrito Federal, a sensação térmica era de 10º para quem circulava ao ar livre. Em noites assim, até o lobo-guará, notório caminhante noturno, procura abrigo sob a copa frondosa de uma piúva para se enrodilhar e se aquecer. O vento frio que passa por Brasília nas noites de inverno costuma bater nas nossas faces com certa dureza, tem momentos em que parece que vento vem acompanhado de agressão ou faz parte de algum recado enviado pelas forças da Natureza.
Naquela mesma madrugada, dentro da Câmara dos Deputados, mais precisamente no ambiente do plenário, um grupo reduzido de parlamentares sentia o ambiente em chamas. As labaredas da ganância, do lucro, da falta de compromisso social e espírito público incendiaram os corações e mentes de 267 deputados que votaram pela aprovação do Projeto de Lei 2.159/21 também apelidado de PL da Devastação.
Há algumas semanas várias instituições divulgaram estudos sobre os riscos da aprovação deste projeto e o tamanho da irresponsabilidade dos parlamentares que se posicionam a favor da proposta. O PL afrouxa as regras para o licenciamento ambiental, estimula o desmatamento, deixa livre os caminhos para a mineração em áreas de proteção, libera a aplicação de agrotóxicos em áreas muito próximas de povoados e comunidades indígenas e rurais entre outros absurdos e aberrações. Até a Associação Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) alertou diretamente os deputados e senadores, lamentavelmente, a maioria dos membros do Congresso Nacional não deu ouvidos para a Ciência.



O brasilianista Warren Daen, no clássico A FERRO E FOGO, A HISTÓRIA DA DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA BRASILEIRA, na página 307, na abertura do capítulo Desenvolvimentos Insustentáveis, traz uma frase de 1975, um dos maiores desmatadores do mundo, Rainor Grecco: “Você já pensou seriamente nas suas consequências?” “A consequência é o lucro.” e tudo indica que a busca pelo lucro a qualquer preço ainda move os “empreendedores” nesta segunda década do século XXI.
Os defensores deste famigerado Projeto de Lei se alimentam de interesses pessoais e da divulgação de mentiras, entre elas, a mais cabeluda é a de que “Mais de 5 mil obras estão paradas no Brasil por causa do Licenciamento Ambiental ”. Mentira deslavada e comprovada. Este número, impresso em uma cartilha ruralista e amplamente abanada pela bancada do agro, simplesmente não tem confirmação. A jornalista Giovana Girardi ficou incomodada com esse número e foi investigar. Procurou em várias instituições, até mesmo com a bancada ruralista e nada. O artigo está disponível na internet: https://apublica.org/2025/07/em-busca-do-numero-magico-de-obras-paradas-por-licenciamento-ambiental/
Vivemos um tempo em que gente com mandato de representação no parlamento desvia os seus propósitos para atender interesses empresariais e desta forma prejudicar a vida da grande maioria da população. O que o atual Congresso Nacional está fazendo com o parlamento e com a Constituição é digno de admiração do mais predador dos parasitas.
Tem como reverter tudo isso? Tem sim, com mobilização popular e fim da manutenção dos privilégios e desvios no Congresso Nacional.
Sigamos em união.
Um abraço frondoso pra todo mundo.
Tobias Ferraz é jornalista, formado pela Uniube. Trabalhou por cerca de 30 anos com jornalismo rural. Nos últimos anos optou pelo jornalismo independente e se dedica às pautas socioambientais.