
Por Tobias Ferraz
Você não vê, mas eles rondam a vizinhança, podem estar em alguma fresta da sua casa, alojados no forro do telhado, ocupando a chaminé da churrasqueira ou a fornalha sem uso do fogão a lenha.
Recentemente o filho de um vizinho gravou em vídeo, do alto do muro, um cachorro-do-mato passeando por um fragmento de mata na área urbana. Algumas semanas depois, as câmeras externas de algumas casas registraram um cachorro do mato atravessando a rua à procura do punhado de ração que um generoso vizinho serve na calçada para os gatos. A moradora, do outro lado do bairro, diz que é mais de um cachorro-do-mato, talvez “uma meia dúzia”, que já atacaram as suas galinhas e talvez rondem por uma área maior ainda, visitando outros fragmentos de mata da região.
Conversando com especialistas aprendi que o cachorro-do-mato tem o sonoro nome de graxaim na linguagem tupi. Também é conhecido como lobinho. É um animal solitário, exceto na época do acasalamento, mais ativo entre o cair da tarde e durante a noite. Onívoro, ou seja, ele come de tudo, inclusive lixo. Isso faz do cachorro-do-mato uma espécie com enorme capacidade de sobrevivência. Por causa desta característica, os biólogos classificam o graxaim como “animal oportunista”.
O cachorro-do-mato tem ainda diversos significados espirituais. Dependendo da cultura, o graxaim pode estar ligado à esperteza, adaptabilidade e capacidade de encontrar soluções para situações desafiadoras.
Sendo assim, vamos aos fatos. Este colunista ficou visivelmente sensibilizado com a situação do animal. Provavelmente faminto e assustado, uma vez que o minúsculo fragmento de mata que ele (ou eles) habitam, não oferece alimento suficiente para a sua dieta, procurei as “autoridades competentes”. Segui “todos os trâmites” e dei início à maratona. O soldado do Corpo de Bombeiros me disse que “não é com eles”. O cabo da Polícia Militar Ambiental disse que “o bicho está no ambiente dele” e que não pode interferir, ainda sugeriu: “é com a zoonoses”.
Conversando com as heróicas ativistas da Proteção Animal, coloquei a minha preocupação. Fui ouvido e acolhido. Diante da minha decepção, desespero e impotência para resolver essa questão de amparo ao graxaim, uma delas me esfregou na cara, a cruel situação, em apenas uma frase: “Bem vindo a realidade da proteção animal”.
Ela me fez enxergar que, mesmo diante da crescente presença dos animais silvestres nas áreas urbanas, a sociedade não desenvolveu mecanismos, normas ou regras que garantam o bem-estar, a segurança e a vida desses animais. Ou seja, destruímos o ambiente natural onde eles viviam, expulsamos eles das suas casas para dar lugar aos loteamentos e condomínios fechados. Lugares por onde várias espécies perambulavam por séculos e gerações, e agora, quando aparecem são considerados “indesejados, invasores, perigosos, repugnantes”.
Existe muita admiração pelo exemplo de Francisco de Assis, que adquiriu uma compreensão profunda e apreço pelos animais, ao ponto de chamá-los de irmãos.
Pena que poucos sigam os exemplos de São Francisco, como fazem as heroínas da proteção animal, mulheres que afrontam o poder político e econômico por uma causa.
Não custa nada lembrar que todas as vidas importam. não deveria existir hierarquia, todos os seres vivos merecem viver em paz.