Muito se falava sobre agosto ser o mês do cachorro doido. Para falar da doença e da crença, convidamos o veterinário Marcos Abel Domingues

O que é a Raiva?
A Raiva é uma enfermidade causada por vírus, transmitida através do contato com a saliva de animal contaminado resultando em quadro de encefalite sempre fatal que afeta diversos mamíferos domésticos como cães, gatos, bovinos, eqüinos e silvestres como morcegos, lobos, raposas, guaxinins. É também uma zoonose porque o homem ferido por mordedura e arranhadura destes animais pode adquiri-la.
A Raiva pode ser descrita em 2 formas clássicas. Furiosa seria aquela forma encontrada e transmitida principalmente por canídeos e felídeos domésticos e silvestres manifestando sinais e sintomas predominantes de agressividade, seguido de paralisia e óbito até 7 dias, normalmente. Paralítica ou Silenciosa seria aquela forma encontrada principalmente nos bovídeos, equídeos e suídeos, silvestres ou domésticos. Nesta forma morcegos se constituem nos principais reservatórios.
A Raiva é uma enfermidade conhecida e descrita há muito tempo, cerca de 1.900 anos AC. Naquela época, entre os povos Mesopotâmios, quando um cão provocasse a morte de alguém, o Código de Eshnunna, uma espécie de “Tratado de Leis” da época, obrigava o dono do animal a depositar uma determinada quantia aos cofres públicos, demonstrando ser a Raiva um problema grave e comum da época.
Em 1530 Girolamo Fracastoro, médico italiano, descreveu a doença como sendo transmitida pela saliva de animal contaminado em contato com o sangue de indivíduo sadio, de progressão lenta, raramente, os sintomas, aparecendo antes de 20 dias, e na maioria após 30 dias, podendo ainda aparecer após 6 meses ou mais.
Em 1880 Victor Galtier da Escola de Medicina Veterinária de Lyon, a primeira do mundo, descreveu os sintomas da raiva no cão.
Coube a Louis Pasteur, cientista francês, em 1885 desenvolver a primeira vacina anti- rábica capaz de proteger cães e torná-los refratários quando mordidos por outros raivosos e também aplicá-la e testá-la em um garoto atacado por um cão raivoso demonstrando sucesso de imunização humana.
Então, seria mesmo agosto, o mês do cachorro doido?
– Esta pergunta ou mesmo a afirmação dela faz parte dos valores culturais de boa parte dos brasileiros. Muitos acreditam ser mesmo até uma lenda cultural. No entanto, pode-se admitir fundamento parcial, nesta afirmação. Normalmente, a partir do solstício do inverno do hemisfério sul, dia mais curto ou noite mais longa, que ocorre em junho, os dias tendem a crescer e então, por conseguinte, sua luminosidade tende a aumentar proporcionalmente.
O aumento da luminosidade favorece significativamente o crescimento folicular dos ovários das fêmeas ocorrendo então uma maior incidência do cio. Considerando os animais dispersos nas ruas quando uma fêmea se apresenta no cio por onde ela passa traz consigo uma boa parcela de machos ansiosos pelo acasalamento.
Durante o mês de agosto os dias já estão grandes o suficiente para influenciar no aparecimento do cio de muitas cadelas e gatas. Assim, a aglomeração de um grande número de animais em contato, em disputa pelo acasalamento, favorece o aparecimento de determinadas enfermidades, inclusive a Raiva, considerando que sua transmissão se dá através de mordeduras e arranhaduras de animais contaminados principalmente. Por isso ao longo de muitos anos atrás, criou-se uma mística do “Agosto, mês do cachorro doido”.Com o advento da vacinação contra raiva animal a incidência da raiva canina e felina tornou-se rara e desmistificou-se em parte aquela antiga ‘realidade”.
Em Uberaba, o último caso notificado de Raiva Canina foi em 2012. Entretanto, mesmo sendo a Raiva uma enfermidade que se previna com vacina e por seu uso freqüente pudesse ser erradicada existem muitos pontos de estrangulamentos que tornam a Raiva Canina e Felina um risco em saúde iminente.
- Existem ainda muitos animais sem dono presentes nas ruas desprovidos de qualquer programa de vacinação, público ou privado.
- Existem ainda muitos proprietários de animais que não exercem posse e guarda responsável de seus animais não os vacinando e não os conservando dentro dos seus domicílios exclusivamente.
- São muito poucos aqueles que constituem médicos veterinários para vacinar seus animais contra raiva tornando-se reféns e dependentes de um programa público eficaz de vacinação.
- Com o desenvolvimento das cidades através do crescimento horizontal a atual área peri-urbana ocupa agora o espaço antes exclusivo da área rural e isto concomitante ao domínio de monoculturas nas áreas rurais, as cidades se viram invadidas por animais silvestres, possíveis reservatórios da Raiva como lobos, cachorros do mato, raposas, morcegos, entre outros.
- Não menos importante, a ocorrência freqüente de alguns focos em bovinos e eqüinos pode contribuir para o aparecimento da enfermidade nos cães e gatos na zona rural.
Considerações importantes:
- Vacinação não é a garantia, mas o caminho para imunização.
- Somente é considerado imunizado aquele animal que apresenta níveis séricos de anticorpos maiores ou iguais a 0,5 Unidades Internacionais (≥ 0,5 UI).
- Em virtude de acidente do seu pet por arranhadura e mordedura por outro mamífero reservatório e principalmente os morcegos, sejam hematófagos, frutívoros ou insetívoros dialogue com seu médico veterinário sobre a necessidade de se estabelecer um programa de vacinação pós-exposição.
- Dois a cinco dias antes do aparecimento dos sintomas cães e gatos, ou seja, no término do período de incubação, podem transmitir a Raiva pela saliva.
Por fim, o Brasil é um país continental e a Raiva é uma enfermidade ainda presente que assola a nossa população e desafia as políticas públicas porque mesmo prevenida com vacina, sua ocorrência nos animais domésticos e também no ser humano, demonstram uma face vergonhosa de um país por seus valores culturais e sociais de desenvolvimento.
Marcos Abel Domingues- Médico Veterinário CRMV-MG 3993