
Rios não são empresas, são corpos da Natureza
por Tobias Ferraz
Há mais de um mês, 14 povos indígenas ocupam as instalações da multinacional do agronegócio Cargill, em Santarém, no Pará. O que deu origem ao protesto foi o Decreto 12.600/25, que “dispõe sobre a inclusão de empreendimentos hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). A medida visa a concessão desses “corredores logísticos” à iniciativa privada para dragagem e ampliação”. O decreto é entendido como a porta de entrada para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, três gigantes que ocupam região Norte e Centro-oeste do país.
A luta dos povos indígenas pela preservação das florestas, dos seus territórios e da sua cultura, como bem sabemos, é antiga. Nos últimos anos, com a intensificação do desmatamento para o plantio de soja, os indicadores ambientais da região mostram queda significativa. Com a chegada da Cargill e outras multinacionais dos grãos, desde 2003, a região perdeu cerca de 1 mil km². A grilagem de terras aumentou, os peixes e a caça diminuíram, as águas estão contaminadas por agrotóxicos.
A ocupação da Amazônia pela espécie humana acontece há cerca de 12 mil anos. Então, é mentira ou má fé afirmar que quando o invasor europeu chegou nas américas, “não tinha nada”. Tinha gente, tinha civilizações e tinha uma forma de vida que privilegia a manutenção e conservação das florestas. As terras indígenas e quilombolas mostram alta capacidade de preservação em função dessa cultura harmônica com a Natureza.
Os conflitos e disputas por terras no Brasil é uma história com o livro aberto até hoje, lamentavelmente. Desde a chegada dos europeus, os povos indígenas são submetidos às mais diferentes formas de sofrimento, em muitos casos, a cobiça pela terra levou à extinção de vários povos. O jornalista Rubens Valente, fez um minucioso, extenso e profundo trabalho de pesquisa sobre os ataques aos povos indígenas no brilhante livro OS FUZIS E AS FLECHAS. Os relatos e depoimentos obtidos por Rubens são chocantes, vale a pena ler para conhecer esta realidade.
A ocupação do porto de grãos em Santarém pelos povos indígenas, é a prova de que trilhamos um mau caminho na política de ocupação das terras amazônicas. Escancara o privilégio que o Congresso Inimigo do Povo oferece para os endinheirados estrangeiros, contra os moradores nativos e legítimos donos dessas terras.
A controversa e precária política de ocupação de terras no nosso país gera mais conflitos do que estabilidade. O pessoal do dinheiro nega a ciência e a crise climática, essas são as bases que sustentam os seus projetos de derrubadas das florestas e extinção dos povos originários. Mais uma vez, estamos diante de um processo de entrega de parte do território nacional pela tal da “elite econômica e política”. O discurso de ocupação do território para garantir soberania nunca funcionou, pelo contrário, mascarou a entrega de enormes extensões de terras para grupos estrangeiros da soja, da mineração e da especulação imobiliária.
O que testemunhamos com a ocupação do porto de Santarém pelos povos indígenas pode ser mais um “Davi contra Golias”. O gigante tem o seu ponto fraco, e os povos da floresta sabem muito bem aonde é que devem cutucar.