Os novos desertos



Por Tobias Ferraz

Está em andamento a COP 17, a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, que deve se estender até o dia 28 de agosto, na Mongólia, um país espremido entre a Rússia e a China e que tem uma das áreas de vegetação nativa mais preservadas do mundo.

Além da desertificação, a Conferência discute a degradação do solo, seca, restauração florestal, e adaptação aos efeitos climáticos. O tema deste ano é “Restaurando a terra. Restaurando a esperança”.

A Conferência reúne delegados de 196 países, e mais um da União Européia, totalizando 197 partes representadas. A delegação brasileira está presente para discutir a degradação, principalmente em dois biomas: caatinga e cerrado. Nos dois biomas brasileiros a degradação avança com muita velocidade, principalmente por causa da agricultura intensiva com monocultura, a exemplo do avanço das lavouras de cana-de-açúcar e da soja. Há quem diga que o Brasil já tem dois novos desertos por causa dessas atividades: o Atacana e o Sojaara.

O município de Morro Agudo, na região de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, tem mais de 70% da sua área ocupada com monocultura de cana. Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, tem cerca de 77% da área total do município ocupados com lavouras de soja. Ribas do Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul, tem quase 30% da área do município com monocultivo de eucalipto, numa região onde a indústria de celulose intensifica as atividades e estimula os produtores. Talvez o MS esteja produzindo o Deserto da Eucaliptogônia. Esse predomínio compromete a diversidade na produção de alimentos e por consequência a qualidade de vida da população local.

Como as atividades humanas são os principais fatores da desertificação, a Conferência também traz na agenda a discussão de temas como financiamento, água, terra e pessoas, sistemas alimentares e saúde do solo.

O Plano de recuperação tem metas audaciosas: 1 milhão de hectares até 2027, 30 milhões de hectares até 2036 e 70 milhões de hectares até 2043. A ideia é intensificar as práticas de conservação do solo e restauração da vegetação nativa, com foco na recomposição das matas ciliares, nas áreas de preservação permanente e de reserva legal, além de medidas para o controle da erosão e revitalização das bacias hidrográficas.

Mais de 40 milhões de brasileiras e brasileiros vivem em áreas suscetíveis à degradação e desertificação. Apesar do número expressivo de seres humanos, da relevante biodiversidade animal e vegetal em risco, a diplomacia brasileira não estabeleceu metas e a comitiva verde e amarela está na Conferência ainda sem definição de proposta. Outras 124 nações já apresentaram suas metas à ONU.

A desertificação é um processo lento e silencioso, pouco monitorado no âmbito dos municípios e por isso é que merece muito mais a atenção de todos nós. Pequenas ações locais podem trazer grandes resultados regionais e globais. O mapeamento e o monitoramento dos pontos de erosão pode ser o começo de um programa municipal de recuperação das áreas erodidas. O monitoramento do assoreamento dos rios e represas pode impulsionar um programa de prevenção e recomposição da mata ciliar.

Em tempos dos efeitos climáticos cada vez mais impactantes, fortalecer a agricultura familiar e os sistemas agroecológicos são compromissos urgentes, e muito mais imediatos, diante dos fortes impactos negativos causados pela monocultura para todo o meio ambiente.

Um abraço frondoso e biodiverso pra todo mundo.

Tobias Ferraz é jornalista, documentarista e fundador da página @biografia_brasil no Instagram. Contato: tobias.ferraz@gmail.com

Tobias Ferraz

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