Por que 26 de agosto é o dia de celebrar os cães?


A data teve início nos Estados Unidos, em 2004, por iniciativa da protetora Colleen Paige, que a escolheu por uma razão específica: foi em 26 de agosto que sua família adotou o primeiro cão em um abrigo, quando ela tinha 10 anos (National Dog Day, nationaldogday.com).
O objetivo foi chamar atenção para os cães que esperam adoção em abrigos e reconhecer os que trabalham servindo às pessoas, como os cães de guia, os cães das Forças de Segurança (Polícia Militar e Bombeiros Militar), que procuram pessoas desaparecidas, além dos cães de farejamento (drogas e armas).
A data se comemora e incentiva a adoção responsável, trabalho voluntário e atenção à saúde do animal, por meio do acompanhamento veterinário, da prevenção de doenças e da prevenção do abandono.
Dois estudos publicados na revista Nature neste ano recuaram a história do registro genético dos cães domésticos (Marsh et al., 2026; Bergström et al., 2026).
A análise de DNA de restos encontrados na Turquia, com cerca de 15.800 anos, e no Reino Unido, com cerca de 14.300 anos, mostrou que cães aparentados já estavam espalhados pela Europa no fim do Paleolítico, quando toda a humanidade ainda vivia da caça e da coleta. Na Turquia, os cães comiam o mesmo peixe disponível para as pessoas, sinal de que já dividiam a comida (Marsh et al., 2026).
Outro estudo, realizado na Alemanha, analisou um cão jovem sepultado junto a dois humanos há cerca de 14 mil anos (Janssens et al., 2018). Os pesquisadores encontraram nos dentes desse cão sinais compatíveis com cinomose, doença viral ainda presente em cães e canídeos silvestres, que pode ser fatal e exige tratamento médico-veterinário para que o animal sobreviva. Há 14 mil anos, alguém provavelmente cuidou de um cachorro doente, o que mostra o cuidado com esses animais desde tempos remotos.
Um estudo publicado na revista PNAS, em 2019, mostrou que os cães desenvolveram um músculo facial mais forte para levantar a parte interna da sobrancelha, o movimento por trás dos famosos “olhos de cachorro”, ausente nos lobos (Kaminski et al., 2019). Ou seja, milhares de anos de convívio moldaram o rosto deles para “conversar” com os cães.
No Brasil a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE estimou, em 2013, uma população de 52,2 milhões de cães domiciliados, presentes em 44,3% dos lares, com média de 1,8 cão por domicílio que possui o animal (IBGE, 2013, não há pesquisa do IBGE recente).
Esse vínculo deu origem a um novo arranjo doméstico, a chamada família multiespécie, formada pelo núcleo humano em convivência com seus animais. Os cães deixaram de ser vistos como simples animais de guarda e passaram a ocupar o lugar de membros da família, com quem se divide a rotina, o afeto e o cuidado.
O levantamento da Abinpet e do Instituto Pet Brasil, divulgado em 2024, descreve uma população de 62,2 milhões de cães no país, a maior entre todas as espécies de estimação (Abinpet, 2024).
O reconhecimento social do conceito chegou ao campo jurídico e atualmente tramitam na Câmara dos Deputados projetos que buscam regulamentar a família multiespécie e definir a guarda dos animais em casos de separação, e já foi sancionada a Lei 15.046, de 2024, que cria o Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Para o médico-veterinário, essa valorização traz uma responsabilidade de forma igualitária, a de assegurar saúde, bem-estar e guarda responsável ao longo de toda a vida do cão.


Cláudio Yudi Kanayama | Médico-veterinário e responsável pelo Setor de Animais Silvestres do Hospital Veterinário da Uniube (HVU)
Fontes
Marsh, W.A. et al. Dogs were widely distributed across western Eurasia during the Palaeolithic. Nature, v. 651, p. 995-1003, 2026.
Bergström, A. et al. Genomic history of early dogs in Europe. Nature, 2026.
Janssens, L. et al. A new look at an old dog: Bonn-Oberkassel reconsidered. Journal of Archaeological Science, 2018.
Kaminski, J. et al. Evolution of facial muscle anatomy in dogs. PNAS, 2019.
National Dog Day. Disponível em: nationaldogday.com. Sobre a origem da data e a fundadora Colleen Paige.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 2013.
Abinpet; Instituto Pet Brasil. Dados de população de animais de estimação no Brasil, 2024.

Os comentários estão fechados.