
Especialista em comportamento animal explica como hormônios impactam atitudes como fugas, marcação de território e disputas entre cães e gatos
Os mutirões e programas de castração gratuita que vêm acontecendo em diferentes regiões do Brasil reacenderam uma discussão importante sobre os impactos da castração na vida dos pets. Além dos benefícios relacionados à saúde e ao controle populacional, especialistas alertam que o procedimento também pode influenciar diretamente alguns comportamentos ligados à ação hormonal nos animais.
O tema ganhou ainda mais força após a ampliação de programas públicos como o Pro Pet SP, do Governo de São Paulo, que já realizou mais de 14 mil castrações gratuitas de cães e gatos em 87 cidades desde dezembro de 2025. A expectativa do programa é ultrapassar 52 mil procedimentos até julho de 2026. O avanço dessas iniciativas também ajuda a combater o abandono e a superpopulação animal, problemas que seguem em crescimento em várias regiões do país.
Para André Cavalieri, especialista em comportamento animal e sócio da Dog Corner, a castração pode ajudar principalmente na redução de comportamentos diretamente ligados ao instinto reprodutivo.
“Após a castração, alguns comportamentos podem diminuir, principalmente aqueles ligados diretamente à ação hormonal. Em cães e gatos, é comum observar redução na marcação de território, nas fugas motivadas por busca de parceiros e em comportamentos relacionados à disputa sexual”, explica.
Hormônios influenciam comportamento, mas não explicam tudo
Segundo André, existe uma relação importante entre hormônios e atitudes como impulsividade, disputas territoriais e marcação com urina, especialmente em machos.
“A testosterona influencia comportamentos como disputa territorial, fugas e marcação de território. Em muitos casos, a castração ajuda justamente porque reduz esse estímulo hormonal”, afirma.
No entanto, o especialista alerta que muitos tutores ainda acreditam que a castração resolve qualquer problema comportamental de forma automática, o que não é verdade.
“Muitos quadros de agressividade têm origem emocional, medo, insegurança, falta de socialização ou manejo inadequado. Castrar não resolve sozinho comportamentos já consolidados”, destaca.
Mitos sobre mudança de personalidade ainda preocupam tutores
Entre os principais mitos relacionados à castração está a ideia de que o animal “perde sua personalidade” após o procedimento.
“O pet continua tendo sua essência, seu nível de energia e suas características individuais. A castração não transforma completamente o comportamento do animal”, explica André.
Segundo ele, o procedimento pode contribuir para mais equilíbrio em comportamentos relacionados ao instinto reprodutivo, mas não substitui educação, treinamento e construção emocional no dia a dia.
Rotina equilibrada continua sendo essencial
O especialista reforça que o comportamento animal depende de uma série de fatores que vão muito além da parte hormonal.
“Um animal equilibrado emocionalmente precisa de socialização adequada, estímulos mentais, rotina organizada, gasto de energia e ambiente saudável. Um cão ou gato que vive estressado ou sem direcionamento pode continuar apresentando ansiedade e reatividade mesmo após a castração”, afirma.
Para André, a castração deve ser vista como uma ferramenta importante dentro de um cuidado mais amplo com o bem-estar físico e emocional dos pets.
Procedimento pode contribuir para convivência mais tranquila
Além de ajudar na redução de fugas e disputas territoriais, a castração também pode contribuir para uma convivência mais tranquila dentro de casa, principalmente quando associada ao acompanhamento veterinário e comportamental.
“A qualidade de vida vem do conjunto. Saúde física, emocional e ambiental caminham juntas. Quando existe manejo adequado e acompanhamento correto, a castração pode ajudar bastante no equilíbrio e no bem-estar dos animais”, conclui André Cavalieri.