
Uma história de sucesso!
Fundador da ComportPet, aos 14 anos o Cleber Santos viveu em situação de rua na região da Praça da Sé, em São Paulo, acompanhado de um cachorro chamado Grafit. Foi justamente o cuidado que demonstrava com o animal que chamou a atenção do dono de um pet shop, que lhe ofereceu seu primeiro emprego e um local para ficar. Anos depois, após passar pelo Exército e se especializar em comportamento animal, Cleber transformou essa experiência em um negócio. Hoje lidera o Grupo ComportPet, que reúne operações voltadas para creche e hospedagem de cães, educação profissional, franquias, tecnologia e marketing para o setor pet, tornando-se uma das referências nacionais do segmento. O blog já publciou matérias assinadas por outros profissionais em torno do inverno em relação aos pets, mas Cleber Santos se dipos a participar de uma entrevista realmente esclarecedora sobre o assunto que, este ano, sob domínio de um super El Niño, pode ser mais forte e duaradouro.
“O tutor deve sempre observar o conjunto de comportamentos, e não apenas um sinal isolado”
Marcos Moreno– Por que os cães tendem a apresentar mudanças comportamentais durante o inverno e quais são os sinais mais comuns observados pelos tutores?
Cleber Santos– Assim como acontece com as pessoas, o frio altera a rotina e a disposição dos cães. As temperaturas mais baixas reduzem naturalmente a vontade de sair, brincar e explorar o ambiente. Além disso, muitos tutores diminuem a frequência dos passeios, o que reduz estímulos físicos, mentais e sociais. Os sinais mais comuns incluem aumento do tempo de sono, menor interesse por brincadeiras, irritabilidade, maior apego aos tutores, inquietação dentro de casa e, em alguns casos, comportamentos destrutivos por falta de estímulo. O importante é observar se essa mudança é leve e temporária ou se passa a comprometer a qualidade de vida do animal.
Marcos- A redução dos passeios e das atividades ao ar livre pode afetar a saúde mental dos cães? Quais são as principais consequências?
Cleber– Sem dúvida. O passeio não serve apenas para gastar energia; ele é uma necessidade comportamental. Durante a caminhada, o cão explora cheiros, observa o ambiente, encontra outros cães e pessoas e exercita sua mente. Quando isso deixa de acontecer por vários dias, podem surgir ansiedade, excesso de energia acumulada, frustração, vocalização excessiva, destruição de objetos e até alterações no apetite. Em cães mais sensíveis, também é possível observar sinais de tristeza e desmotivação.
Marcos- Como diferenciar um comportamento normal causado pelo frio de sinais de ansiedade, estresse ou depressão canina?
Cleber- Dormir um pouco mais e procurar lugares quentes é absolutamente normal no inverno. O alerta surge quando o cão deixa de demonstrar interesse por atividades que antes gostava, perde o apetite, evita interação com pessoas ou outros cães, apresenta comportamentos repetitivos, passa a destruir objetos com frequência ou demonstra mudanças importantes de humor por vários dias consecutivos. O tutor deve sempre observar o conjunto de comportamentos, e não apenas um sinal isolado.
Marcos- Quais atividades podem ser realizadas dentro de casa para gastar a energia física e mental dos cães nos dias mais frios?
Cleber– Existem diversas opções. Esconde-esconde com petiscos, brinquedos recheáveis, jogos de faro, circuitos com almofadas, comandos de obediência, brincadeiras de buscar objetos e sessões curtas de treinamento ajudam muito. Muitas vezes, quinze minutos de estímulo mental proporcionam um nível de cansaço semelhante ao de uma caminhada longa.
Marcos- O enriquecimento ambiental é frequentemente citado por especialistas. O que ele significa na prática e como os tutores podem aplicá-lo sem grandes investimentos?
Cleber- Enriquecimento ambiental significa tornar o ambiente mais interessante para que o cão possa expressar comportamentos naturais, como farejar, procurar alimento, resolver pequenos desafios e explorar diferentes estímulos. Não é necessário investir muito dinheiro. Esconder petiscos pela casa, utilizar caixas de papelão, garrafas adaptadas, toalhas enroladas com alimentos ou alternar brinquedos já proporciona excelentes resultados. O objetivo é estimular o cérebro do cão diariamente.
Marcos- Existem raças ou perfis de cães que sofrem mais com a diminuição das atividades durante o inverno? Por quê?
Cleber- Sim. Raças originalmente desenvolvidas para trabalho, esporte ou pastoreio, como Border Collie, Pastor Australiano, Labrador, Golden Retriever, Belgian Malinois e Husky Siberiano, costumam sentir bastante a redução dos estímulos. Além das raças, cães jovens, muito ativos e aqueles acostumados a uma rotina intensa de exercícios também sofrem mais quando essa rotina muda de forma brusca.
Marcos- A obesidade tende a aumentar nesta época do ano? Como equilibrar alimentação e gasto energético quando os passeios ficam mais curtos?
Cleber– Infelizmente, sim. É comum que o gasto calórico diminua enquanto a quantidade de alimento permanece igual ou até aumente, principalmente quando os tutores oferecem mais petiscos. O ideal é ajustar a alimentação conforme o nível de atividade física, controlar a oferta de petiscos e compensar a redução dos passeios com brincadeiras, enriquecimento ambiental e atividades dentro de casa.
Marcos- Creches, daycares e serviços especializados em comportamento animal vêm crescendo no mercado pet. Em quais situações esses serviços podem ser uma boa alternativa para os tutores?
Cleber- São excelentes alternativas principalmente para famílias que trabalham fora, passam muitas horas ausentes ou não conseguem manter uma rotina adequada de exercícios durante o inverno. Um bom daycare oferece socialização supervisionada, atividades físicas, enriquecimento ambiental e acompanhamento comportamental. Isso reduz significativamente o estresse, melhora o equilíbrio emocional e contribui para uma convivência mais harmoniosa dentro de casa. É importante escolher locais que priorizem grupos compatíveis, segurança e profissionais capacitados em comportamento canino.
Marcos- Quais erros os tutores mais cometem durante o inverno em relação à rotina e ao bem-estar dos seus cães?
Cleber- O principal erro é acreditar que o frio elimina a necessidade de atividade física. Também é comum reduzir completamente os passeios, aumentar a quantidade de comida, deixar o cão isolado por muito tempo e interpretar sinais de tédio como “preguiça”. Outro erro é utilizar roupas em cães que não precisam delas, causando desconforto. Cada animal deve ser avaliado individualmente.
Marcos- Que orientações práticas você daria para que os tutores mantenham seus cães felizes, saudáveis e emocionalmente equilibrados durante toda a estação mais fria do ano?
Cleber- Meu conselho é simples: mantenha a rotina. Mesmo que os passeios sejam mais curtos, procure realizá-los diariamente nos horários mais quentes do dia. Inclua brincadeiras, treinamento, desafios mentais e momentos de interação com a família. Cuide da alimentação, mantenha o acompanhamento veterinário em dia e observe qualquer mudança persistente de comportamento. Um cão emocionalmente equilibrado não depende apenas de exercício físico, mas também de estímulos mentais, previsibilidade e vínculo com seus tutores.
Marcos- Muitas pessoas acreditam que os cães apenas dormem mais no inverno. Até que ponto isso é um comportamento natural e quando pode ser um alerta de que algo não está bem com o animal?
Cleber-É natural que muitos cães durmam um pouco mais durante os dias frios, principalmente quando a temperatura cai bastante. No entanto, o sono não deve vir acompanhado de apatia, isolamento, perda de apetite, dificuldade para levantar, dor, perda de interesse pelas atividades habituais ou mudanças bruscas de comportamento. Se esses sinais aparecerem, é importante procurar um médico-veterinário para descartar doenças e, se necessário, um especialista em comportamento animal. Quanto mais cedo a causa for identificada, melhores são as chances de recuperar o bem-estar físico e emocional do cão.