Meu querido Chien

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Lá na França Chien é apenas um substantivo comum, mas aqui, na minha casa, para mim, é o nome que dei ao cão que adotei há 14 anos. A história é conhecida por todas as pessoas que me conhecem. Conto pessoalmente, contei em redes sociais, vivo contando. Conto porque dei esse nome a ele, conto como foi a decisão e etc. Na Rádio Universitária 104,9 FM contei toda a nossa história dividida em minutos: Minuto Pet!
Nada de extraordinário. Só eu sabia até onde ia a “inteligência” dele, do que ele era capaz para chamar minha atenção e todas essas coisas que todo mundo que tem um pet acha que é exclusividade dele. E é. Mas porque sabemos disto? Porque, acredito eu, que de alguma maneira projetamos em nossos pets, especialmente os cães, uma parte significativa de nós mesmos. Óbvio? Não pra todo mundo, mas pode ser assim analisada a nossa relação com eles. Quem sabe até por conhecedores do comportamento humano e animal.
Não, eu não sou essa pessoa. O que falo é intuitivo, pela intensidade do convívio que tive com esse cão. Mas acho que mesmo as pessoas menos intensas em seus contatos com bichos domésticos, transferem inconscientemente essas partes insondáveis de si mesmas para eles.
Não há explicação para o que se passa na troca de olhares entre um ser humano e seu cão de estimação. Estudiosos já explicam que ambos (humanos e cães) liberam hormônios de afinidades inexplicáveis como o amor entre mãe e filho, por exemplo. Enquanto os estudos científicos avançam, tanto para explicar nossa mente quanto a dos cães, fico eu aqui, tentando escrever alguma coisa em função da partida do meu Chien. Sim, ele se foi. Seria uma “homenagem póstuma”? Um desabafo? Nada explicaria o vazio que sinto. E quando penso que já falei pra outras pessoas a expressão “é apenas um cachorro”… Agora eu sei que não “é apenas um cachorro”. É uma criatura que mexe com nossos sentimentos mais profundos, pela verdade que nem sempre encontramos nos humanos e que é tão clara neles, nos cães.
É uma criatura que dá forma a pensamentos/sentimentos que nunca ousamos encarar, ou nunca sequer soubemos que fazia parte de nossos corações e mentes. A convivência com eles traduz o cuidado, a dúvida, o medo, o desejo de acertar, outros desejos nobres e muitos sem nobreza alguma. Mas eles são a nossa parte boa. Sem máscara, sem necessidade de aprovação, assumindo nossas necessidades físicas e emocionais sem reservas, sem disfarces. A fome…e o medo. A sede…e o afeto.
E assim a gente vai se misturando no dia-a-dia, se permitindo e se entendendo. Acredite em quem conversa com seu cão. Veja como é simples: perguntamos e respondemos. São eles que respondem? São. Somos nós que nos respondemos? Somos. É a nossa ingênua alegria e a sensação de liberdade que corre em espaços amplos em quatro patas. É a nossa frustração que se encolhe num cantinho em forma de uma bola de pelos. É o alerta de respeito que rola em uma mordida. Eles mudam nossa forma de ver a vida. Eles invadem mesmo nossa vida. Por eles fazemos amizades, por eles brigamos…Vai acontecendo aos poucos esse domínio que só pode ser atribuído ao amor, ou ao que entendemos (ou não) desse sentimento. Porque quando a gente pensa no maior e melhor dos sentimentos humanos, entendemos que é o amor. Traduzimos com essa palavra. Então é amor sim o que sentimos por eles.
Ah meu Deus, tá muito difícil pensar a vida sem ele. Só eu sei. Mas vai passar, claro.
Felizmente durante a sua vida eu tive muito apoio e ajuda de pessoas incríveis, profissionais que me ajudaram a manter o bem estar físico do Chien. Por muitas e muitas vezes ele precisou de médicos veterinários e por outras tantas, de outros profissionais ligados a esse universo. Sempre fui grato, mas quero expressar novamente minha gratidão. Não dá para citar nomes desses anjos protetores porque, felizmente, são muitos. Obrigado de coração.
Mas preciso citar uma pessoa que esteve em todos os momentos nos acompanhando, nos socorrendo, nos ensinado, me corrigindo no comportamento com o Chien, de forma rígida, sincera e generosa ao mesmo tempo, me mostrando os erros e acertos em cada momento dessa convivência. Adriano dos Santos, meu agradecimento a você não tem tamanho. Obrigado meu amigo, obrigado. Obrigado sempre.
Para o Chien, não tenho palavras. Não me importo se me acharem exagerado ou bobo por gostar tanto dele. Não me importo mais com o julgamento das pessoas. “Tô nem ai”.  Tentei tratá-lo como um cachorro. Aprendi a respeitá-lo como um cachorro. E amei muito o meu cachorro. Pronto. Na minha mente criei um céu para o meu cachorro e lá que ele está. Meu Chien,  meu tão querido Chien!!!

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